As passarelas passeatas da DASPU
Por Elaine Bortolanza
Sexta-feira, 16 de dezembro de 2005, Praça Tiradentes: eu não estava vestida com um parangolé, mas era como se estivesse. Me sentia como uma asa-delta em êxtase. Foi um momento histórico para o movimento de prostitutas. A Praça Tiradentes, que também é do povo, de povo estava lotada naquela linda sexta-feira. Estava linda, colorida! Colegas putas voavam com parangolés de muitas cores, de todas as cores, e forravam o chão de paralelepípedos da rua com pétalas de rosas. Pétalas para as putas pisarem no desfile de lançamento da DASPU. Em 1987, quando realizamos nosso primeiro encontro nacional, o nosso lema, lembrando Cartola, era: as rosas já falam. Passados quase 20 anos desse primeiro encontro, as putas desfilam a nossa moda pisando em rosas. Gabriela Leite1
Putas em êxtase vestida de parangolés2 na praça Tiradentes. O sonho de Mondrian de que a arte se dissolveria na vida como um gesto empreendido pelo corpo, através da linguagem táctil davida3 ressoava nesse dia marcante para o movimento das prostitutas e anunciava o lançamento da daspu.
Proposição de uma linguagem táctil do programa da vida: o tato como elemento imprescindível nos modos de subjetivação do ser. Tocar no seio da linguagem, jogo lúdico e político que penetra mundos aparentemente opostos, como moda e prostituição, pornografia e ação política, sexualidade e resistência, arte e vida. Não uma grife para definir padrões e tendências da moda, mas sim abrir por meio da linguagem e da sexualidade uma brecha para as putas falaram por si mesmas. Deixar falar a nudez do desejo.
A daspu é um agenciamento coletivo criado para dar conta da configuração contemporânea dos desafios próprios à ação política do movimento das prostitutas. Multiplicidade de linguagens e sentidos que a prostituição e a palavra puta ganha ao transitar por espaços completamente dissociados da pornografia.
Quando as putas desfilam nos locais de prostituição ou nos espaços freqüentados por artistas e pessoas ligadas ao mundo da moda, de uma certa maneira, há um estranhamento provocado pela irrupção de um gesto pornográfico fora do campo da prostituição. Esse estranhamento explicita duas dimensões: a figura da top model como modelo de sexualidade feminina, sexualidade essa extremamente instrumentalizada e ao mesmo tempo tomada como referência e a figura do padrão feminino da elite econômica brasileira, completamente identificada com o padrão internacional da moda, representada pela grife daslu. A presença da puta no campo da moda explicita essa instrumentalização da sexualidade feminina, ao mesmo tempo em que funciona como uma espécie de avesso.
A figura da puta desfilando nas passarelas off das semanas de moda provoca um embaralhamento dos modelos da sexualidade feminina, de tal forma que não há mais como identificar quem é puta e quem não é. Mais do que isso, há um deslocamento intenso dos espaços até então reconhecidos como o lugar das lutas políticas. São forças de resistência se infiltrando nos vacúolos do capitalismo contemporâneo e provocando torções e distorções nos modos como o movimento social vem atuando.
Transgressão dos limites operando exatamente na nossa sexualidade, liberando assim a linguagem do discurso dizível e calculado pelas amarras do poder. A transgressão é um gesto relativo ao limite. Difícil apreender essa linguagem, já que ela se expressa no jogo dos limites e da transgressão, e não cessa de recomeçar a transpor uma linha que novamente recai no limite, interrompendo o jogo e recuando para um horizonte intransponível.4
A moda das putas não está na roupa, mas na excitação de algo que está entorpecido na sexualidade, no desejo, e que se expressa através de cenas “eróticas” que nos dominam e nos imobilizam. Erotismo da moda. Revelação do aspecto interior da moda. Anti-moda, anti-modelo. Moda e modos de vida. Moda-plural. Intersecções da moda com outros campos e vetores. Deformação do movimento rígido e disciplinado das top-model. Multiplicidade de estéticas femininas. Formosura desmedida. Noite do corpo. Potência estética do prazer, gozo sensorial, desestabilização dos órgãos de sentido, incômoda moda5.
O desejo de vestir a daspu vai muito além da vontade de consumir a marca. Há um desejo de compartilhar a linguagem dos gestos pornográficos, as fantasias, o erotismo, os prazeres da noite. Moda como gesto e não como discurso. É como se abrisse um possível, a partir da tensão entre moda e ação política, moda e pornografia, padronização e diferenciação.
As passarelas-passeatas da daspu passeiam pelos espaços sagrados da moda reinventando atos estéticos como configurações da experiência pornográfica, suscitando novos modos de sentir e induzindo novas formas da subjetividade política. A utilização de um signo máximo do capitalismo servindo de passarela para novas expressões políticas.
A primeira coleção da daspu teve como tema o universo dos caminhoneiros e a forma como a prostituição se relaciona com esse universo. Inspirada neste universo, a coleção ganhou um nome insinuante, ao mesmo tempo em que anunciava a entrada das prostitutas no mundo da moda: daspu na pista: BR 69.
Desfile-performance das putas que entraram na pista 69 com musculosos borracheiros, caminhoneiros e mulheres de outras profissões. Putas esbarravam nos pneus, sujas de graxa, agarradas aos borracheiros e caminhoneiros.
Intervenção cênica que extrapola a performance puramente estética, porque atinge a dimensão ética e política, colocando em cena a experiência existencial e cultural das prostitutas, ao mesmo tempo em que encena a militância das prostitutas, ocupando cada vez mais os espaços do cotidiano.
No Clube Glória, antiga igreja localizada no Bexiga, bairro popular da capital de São Paulo, desfilaram prostitutas da Rua Augusta, psicólogas e pesquisadoras. Um devir-puta percorria os camarins, numa agitação que extrapolava as tentativas de controle da organização do evento. As putas-modelos compartilhavam entre si um desejo incontrolável de intimidade com o gesto pornográfico. Batons borrados, marcas de batom pelo corpo, seios insinuantes, bundas exuberantes, quadris à mostra, movimentos sinuosos e sensuais. Durante os desfiles, gritos, ruídos, aplausos, risos misturavam-se aos fluídos orgásticos da intervenção cênica.
Desfile-intervenção que excede a efemeridade dos desfiles tradicionais. Desfile-que-não-termina, que reverbera para além do campo da moda, contagiando as esferas de poder do campo das políticas públicas, reinventando ações políticas.
As passarelas da moda como espaço para as novas expressões políticas desloca completamente a ação política do plano da militância esvaziada, ao invés de entregar panfletos e proferir palestras, as putas falam desfilando, afeto desmedido e ambíguo, fora dos contextos de atuação já estabelecidos. Ao mesmo tempo, elas compartilham ao livre uso dos homens o “gesto roubado” e ameaçado o tempo todo pelos mecanismos de poder da sexualidade. Gesto que irrompe no limite da linguagem. Linguagem silenciosa e sem intimidade com o exterior. Linguagem trêmula e intumescida de vazio, sem proteção nem retenção, desnuda, plena, atrativa.
Elaine Bortolanza atua como pesquisadora na área de saúde e sexualidade, atualmente é consultora da Unesco. Desenvolveu trabalho de criação e apresentação de moda com profissionais do sexo da cidade Corumbá. Mestre em Psicologia no Núcleo de Subjetividades Contemporâneas - PUC-SP com a pesquisa Pornografia dos afectos: gestos, estética e erotismo. email: ebortolanza@yahoo.com
segunda-feira, 29 de outubro de 2007
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